Home >>Literatura>>Ensaios>> Devi e a Anatomia da Crença
Devi e a Anatomia da Crença
Tradução de Ladjane Souza
A vida antes da vida e a vida após a morte são como a vida no espaço cósmico ou como as 70 virgens lascivas que esperam um corpo se reconstituir para então conduzi-lo ao paraíso... Sua existência depende da crença das pessoas, do mesmo modo que, é claro, a existência de qualquer deidade a quem o homem já tenha se dirigido.
Algumas crenças sobrenaturais tornam-se fatos através da experiência direta dos santos, místicos, adeptos do xamanismo e de uma série de outras pessoas religiosas que são capazes de identificar nos relatos da experiência religiosa de outros o compartilhamento da Mente Universal. Nunca um místico autêntico discordou de outro místico autêntico. Seus relatos são intercambiáveis e sua singular tranqüilidade é compartilhada.
A controvérsia ocorre em níveis mais inferiores entre aqueles cujas crenças apenas se adequam às exigências das instituições sociais: a família, a comunidade, a nação. A posição e a reputação dos membros de uma religião são, em grande parte, determinadas pelo grau de aceitação e obediência destes às regras ensinadas nos escritos sagrados de tal religião.
Se as pretensões de tais pessoas ao paraíso incluíssem apenas o campo da religião, nós todos poderíamos aprender a conviver com a sobreposição das fronteiras. Porém os extremistas que estão entre essas pessoas insistem em reivindicar também as questões terrenas. Pat Robertson diz a seus numerosos telespectadores cristãos que o presidente da Venezuela deveria ser assassinado. Os ateus, que são extremistas pelo avesso, querem que a palavra "Deus" seja retirada do Juramento de Fidelidade (à bandeira americana) e o próximo item de sua agenda é a retirada dessa palavra de nossa moeda. O "Design Inteligente" não é a "não-interferência" de Ishvara, é a violação pelo Criacionismo da Lei da Evolução (não é mais uma teoria). A Al Qaeda enaltece a paz do Islã e promete cortar a garganta de qualquer infiel que questione suas intenções de paz. Os Curandeiros da Fé (Faith Healers), que fazem um bom trabalho com doenças psicossomáticas, não compreendem que meningite espinhal não é uma doença da mente. Eles já levaram diversas crianças à morte tentando curá-las com orações.
A questão é, então, por que é que as pessoas, em nome da religião, aceitam ou sugerem soluções que, fora do contexto religioso, fariam com que fossem presas ou internadas em asilos para loucos?
Há cerca de 50 anos, o grande diretor de cinema indiano Styajit Ray, criou Devi, um filme que explora as causas e efeitos da crença no sobrenatural. Por quê as pessoas prontamente aceitam a existência de coisas para as quais não existem provas empíricas? E, uma vez acreditando, por quê é que elas então supõem que suas razões são as únicas válidas, descartando as crenças divergentes como superstição tola? O que é que faz as pessoas acreditarem no mundo sobrenatural e, de repente, rejeitarem tais crenças pois elas não passaram em um teste arbitrário aplicado no mundo natural? E o que é que motiva um homem a se identificar como sendo um livre pensador moderno, desvencilhado de superstições arcaicas, quando, no entanto, ele combina antigas e novas crenças para satisfazer seu sofisticado senso de bom comportamento, e se mostra tão cego com relação aos seus próprios julgamentos quanto é crítico dos julgamentos dos outros?
O enredo de Ray, baseado num conto de Mukherjee sobre um tema de Tagore, é elegantemente simples: o filme narra em retrospectiva que
Daya, a menina que se tornará "Devi" (Deusa), tem 14 anos e está noiva de Uma, o filho mais novo de um rico proprietário de terras. Ela é bela, gentil e encantadora, e seu jovem marido a chama de "Devi", isto é, "Deusa". O rapaz não tem intenção de ser levado a sério pois ele é, ao menos de acordo com seu pai, um cristão.
Uma é um universitário dedicado que se imagina ocidentalizado e avançado em suas atitudes perante a vida porque domina o idioma inglês e despreza as religiões tradicionais da Índia.
Dois anos antes de Uma e Daya se casarem, sua mãe morre, deixando seu pai triste, solitário e atormentado por uma doença na perna. Mas tudo isso muda quando Uma traz sua graciosa noiva para morar na casa de seu pai enquanto ele volta às aulas na distante Calcutá. Daya dá toda a atenção e carinho a seu futuro sogro, trazendo-lhe seus remédios e massageando seus pés. Ele é um grande devoto da Deusa Mãe Kali, e chama Daya de "Pequena Maa", Maa sendo a maneira carinhosa com que os devotos de Kali a Ela se dirigem.
Porém, sua devoção não se limita a isso... Em conversas com Daya, ele denigre o amor de seu filho "cristão" por ela, insinuando que o jovem não lhe dá a atenção devida e não a valoriza da maneira que ele próprio a valoriza. À semelhança de um paxá, o velho se reclina sobre uma pele de leopardo em seu divã e fuma tabaco em um narguilé, enquanto a bela jovem esfrega-lhe os pés.
Até mesmo o papagaio de estimação da casa a chama de Maa, nome que ele repete interminavelmente toda vez que ela entra na sala.
Três outras pessoas moram na casa: o irmão mais velho de Uma, sua esposa arredia e seu filho pequeno, Khoka, a quem Daya adora. O irmão é uma típica alma do limbo... um herdeiro cujo único dever é esperar. Ele bebe excessivamente para curar seu tédio e falta de objetivos. Tal comportamento termina por afastar a esposa que não mais permite que ele a toque. Ela é uma mulher amarga que não faz o menor esforço para esconder sua inveja de Daya, pois seu filho prefere a companhia da tia à sua. Ele vai escondido ao quarto de Daya toda noite para ouvir contos de ninar e dormir ao seu lado. A mãe o proíbe de ir, inventando que a tia não gosta de suas visitas noturnas. Mas ele não se deixa enganar e continua a ir ao quarto da tia. Na verdade, ele é o único amigo de Daya e os encontros com ela são como festas nas quais ela conta histórias de arrepiar, sua preferida sendo aquela sobre bruxas que devoram criancinhas.
Sempre que encontramos pessoas cujas crenças ultrapassam os limites da imaginação, nós descobrimos em sua personalidade certas imaturidades peculiares. É como se, num determinado ponto crucial de suas vidas, elas precisassem de um guia, um modelo de comportamento ou outra fonte de informações vitais que as ancorasse no solo da sóbria realidade. Apesar das fantasias e ilusões da infância, tal âncora permaneceria para dar-lhes firmeza sempre que começassem a se afastar da zona de segurança da dúvida cabível. Sem ela, ainda que fossem adultos na aparência, faltar-lhes-ia aquele elemento essencial que funcionaria como a voz da razão.
A passagem do tempo agiria sobre eles do mesmo modo que age sobre todos nós, mas elas permaneceriam ingenuamente susceptíveis à superstição, a artifícios tolos e às tentativas de manipulação das pessoas ao seu redor.
É a dúvida cautelosa e não o simples negativismo cínico que nos faz olhar mais longe, desconfiar das aparências, considerar o passado e projetá-lo, juntamente com o presente, no futuro, a fim de tomarmos decisões e não de fazermos adivinhações. Estas pessoas, porém, não conseguem tomar decisões quando é necessário. Geralmente elas são passivas e confiam em sua própria natureza benigna para se adaptar a qualquer resultado. Elas tendem a ver nos outros o complemento ativo de sua própria benevolência.
A maturidade de Daya havia-lhe sido confiscada devido a uma falha no processo cultural tradicional. Como a maioria das noivas de sua classe, ela deveria agir como uma extensão de seu marido, mas tal concepção peninsular sucumbiu ante a ausência deste. Uma noiva, especialmente uma de 14 anos de idade, que foi privada da companhia de suas amigas e da família, depende da presença física e emocional de seu marido para ter estabilidade. Ela não sabe ser uma extensão de um corpo ausente e não consegue ser independente. Uma compreensão intelectual da necessidade de Uma de se afastar de casa não compensa a necessidade emocional de Daya, que, em sua crescente insularidade, não pode ir além do impressionismo inocente da infância.
Seus antagonistas não são tão inocentes e todos eles buscam tirar vantagem de sua vulnerabilidade.
Chega, então, o momento crítico:
Daya já tem dezessete anos e Uma está em casa para participar de um ritual em homenagem a Kali. Depois dos fogos de artifício e da celebração da multidão, de acordo com os costumes, a imagem de Kali é depositada no rio e a festa chega ao fim.
Enquanto Uma se prepara para retornar à universidade para seus "importantíssimos" exames finais, não querendo deixá-lo partir, Daya pergunta-lhe para que ele precisa de um diploma. Ele responde: "Para trabalhar". Ela então lembra que ele não precisa trabalhar pois é rico. Mas ele contra-argumenta que ela não entende o quanto seus professores lhe têm em conta e que seu domínio da língua inglesa é uma conquista importante. Mesmo já tendo aceitado um cargo em Calcutá, ele pergunta a Daya, dirigindo-se a ela como se ela fosse uma criança: Quando eu me formar, pode ser que eu tenha que trabalhar em um lugar distante. Você irá comigo? Ela ingenuamente responde: "O seu pai vai permitir isso? Ele depende tanto de mim".
Uma garante-lhe que vai falar com o pai e convencê-lo a deixá-la ir. Então, lembrando-se de Khoka, o sobrinho a quem tanto se afeiçoou, Daya pergunta: "Podemos levar o Khoka conosco?" Uma sorri. "É claro que podemos", ele diz, acrescentando, "Nós também teremos outros Khokas". Ela ruboriza e esconde o rosto.
Ray nos mostra que estas pessoas não têm nada de bizarro. Suas vidas são aparentemente normais dentro de sua cultura e classe econômica. Quem acredita em fantasias não cai do céu ou sobe pelo esgoto. È alguém que se senta diante de nós na mesa do café da manhã, naquilo que, no seu contexto, é uma casa e um bairro como todos os outros.
Do lado de fora, na escadaria da casa grande, um mendigo entoa uma canção a Kali, censurando-a por tê-lo abandonado em todos os momentos de necessidade. "Eu nunca mais vou chamá-la de Mãe", ele promete.
Seja de um Mendigo ou de um rei, em geral a crença em uma deidade benévola não se mantém em meio a um infortúnio prolongado. Os desejos de bens materiais são satisfeitos por deuses do mundo material, não importando os nomes espirituais que tais deuses recebam. Quando a crença limita-se a si mesma, o louvor ao deus pode ser entusiástico, mas as palavras são proferidas em vão. As condenações podem se encher de som e fúria mas nada significam.
Outro indício dos poderes sobrenaturais que em breve serão atribuídos a Daya é a acusação feita pela mãe de Khoka que arrasta o menino até Daya e diz: "Você o enfeitiçou! Ele não quer me ouvir".
Esta sugestão de poder sobrenatural é do tipo "Olho gordo" ou satânico. É um mecanismo de defesa comum - a pessoa não consegue enfrentar seus próprios erros ou defeitos e então põe a culpa em alguém de quem tem ciúmes, difamando a pessoa com insinuações de magia ou de outra intenção demoníaca.
Uma parte para a universidade e seu pai, ansioso talvez com a possibilidade de perder sua nora, tem uma visão na qual a imagem de Kali se sobrepõe à de Daya. Em êxtase, ele corre para contar aos outros que Kali reencarnou na pessoa de Daya. Tenha ele tido ou não a intenção de fazê-lo, esta visão resulta na permanência da moça em sua casa. Ele ordena que todos a reverenciem. Seu filho mais velho e a esposa deste não acreditam na visão e a consideram um total absurdo, porém a crença do ancião não deve ser questionada, pois ele não apenas é muito respeitado por todos mas é também o dono de tudo por ali.
Este é mais um ingrediente na terrível combinação que dá origem ao fanatismo. Quando uma pessoa que tem poder e cuja boa-vontade é vital para um indivíduo ou grupo afirma que o improvável é verdade e ordena a aceitação de tal crença, aqueles que lhe são próximos podem não acreditar, mas irão fingir que acreditam por causa de seu interesse próprio e, com esta falsa aceitação, essas pessoas espalham o vírus da credulidade.
Enquanto sua esposa dá um passo atrás indignada, o filho mais velho junta-se ao pai e cái de joelhos, tentando tocar com a cabeça os pés da moça que, perplexa, os encolhe.
O retrato da cunhada cética feito por Ray, parece, a princípio, indevidamente exagerado. Porém, ao contrário do seu marido, ela não dissimula seu ceticismo com expressões de devoção nem negocia suas dúvidas em troca do prestígio que elas podem lhe trazer.
Daya, desesperadamente confusa, é colocada sobre um estrado, enfeitada com grinaldas e cercada de velas, lamparinas, címbalos, sinos e nuvens sufocantes de incenso, enquanto se procede a um ritual de adoração, adequadamente presidido por um sacerdote Brahmin que, tendo sido sempre bem pago por seus serviços, tem um interesse financeiro na validação desta reencarnação.
Não há nada de cínico no reconhecimento de Ray da influência do dinheiro sobre as religiões organizadas. Os ricos são e sempre serão tratados de um modo especial e a justificativa ética para isso é que o dinheiro, de algum modo, será repassado para atender às necessidades dos pobres. Às vezes isso é mesmo verdade...
Um empregado, prostrando-se aos pés de Daya, implora o perdão de pecados que ela sequer consegue confessar. Relacionando as estórias de bruxas contadas por Daya com o status sobrenatural da tia, Khoka foge, não só porque eles deixaram de ser "iguais", mas por medo dela.
Esta é a resposta dos jovens - a fase do Pícaro e do Super-homem, em termos junguianos - a única maneira possível de as crianças de qualquer idade reagirem àquilo que escapa ao seu entendimento.
Desconhecidos e parentes se ajoelham em oração diante de Daya e ela recebe a adoração com indiferença pois não sabe como é que uma deusa se comporta nem como negar a visão do patriarca sobre a encarnação. Os únicos deuses que ela já havia visto eram feitos de pedra e, à exceção das lágrimas que escorriam vagarosamente em seu rosto, nada mais podia fazer além de assumir este ar de desinteresse. Ela desmaia e, quando torna a si, pede à cunhada que escreva uma carta para Uma.
Na faculdade, as obrigações acadêmicas de Uma mostram-se menos urgentes. Ele e um colega assistem a uma comédia em que o alvo da piada é um chinês que fala de seus ancestrais. Os atores indianos descaradamente zombam do chinês e sua óbvia rejeição do sistema de castas e da teoria da reencarnação. E Uma, apesar de compartilhar da mente aberta da "nova geração", ri tanto quanto o restante do público indiano.
Mais tarde, quando seu colega confessa-lhe que pretende se casar com uma viúva, o que o tornará um deserdado, Uma reage com uma consternação tradicional e duvida que seu colega esteja falando sério, mas este assegura-lhe que está sendo sincero. Acreditando-se um expert em debater pontos de vista contemporâneos, Uma então combina com o amigo que vai procurar o pai deste e pleitear a abertura de uma exceção às proibições tradicionais de tal união.
Vemos aqui a coesão social que a crença religiosa oferece. Enquanto cristão, ele não deveria demonstrar nenhuma simpatia pelo sistema de castas nem se mostrar contrário ao casamento com uma viúva. Mas, à semelhança de um código que identifica membros de um mesmo grupo, uma risada é capaz de reconciliá-lo com suas velhas crenças e o dilema romântico de um amigo é capaz de fazê-lo abraçar as suas novas crenças. Quanto mais superficial a crença, tanto mais fácil ela se modifica para acomodar os requisitos de uma outra religião. O que importa é a sociedade e não o dogma.
Uma recebe o chamado urgente da cunhada e, mesmo sem saber dos detalhes, inicia a viagem de volta.
O mendigo que negou Kali anteriormente agora quer negociar com a deusa. Seu neto está doente e ele retorna à escadaria da mansão carregando o corpo do menino que está inconsciente. "Se você curar o meu neto, Maa", ele diz a Daya, "eu serei seu servo devotado pelo resto de minha vida". Ele admite que o médico não deu ao menino nenhuma esperança de cura, mas o sogro de Daya recebe a criança, assegurando-lhe que o poder de Kali fará o que os remédios não podem fazer. O garoto é colocado aos pés de Daya e o sacerdote Brahmin começa a gotejar água de rosas e água de arroz em sua boca.
A crença freqüentemente possui um componente de barganha. Uma pessoa acredita desde que o deus lhe dê aquilo que deseja. Se o desejo lhe é negado, ele suprime o favor de sua adoração. Porém, seu próximo desejo, em geral, constitui outra oportunidade para o deus se redimir.
Uma chega em casa pela manhã, atordoado pelo que vê diante de si. Ele repreende seu pai severamente: "O senhor perdeu a razão? Este sonho é uma fantasia absurda!" O pai recorre a um argumento de difícil refutação: ele recita versos antigos em sânscrito sobre o dever do filho de respeitar seu pai. "Você está me chamando de mentiroso?", ele pergunta. A justificativa racional do fanatismo é reduzida a uma questão de dever filial.
E, novamente, em sua dissecação da crença religiosa, Ray expõe um outro elemento. Recusar-se a seguir a religião dos pais é um insulto aos mesmos. A religião não tem nada a ver com isso. Uma compreensão espiritual verdadeira não faz distinção sobre que religião um filho ou um pai segue, desde que se trate de um caminho legítimo, que possa conduzir ao mais alto nível de espiritualidade - e que a intenção de quem a segue seja a de seguir este caminho até a perfeição espiritual. Mas, quando se trata de uma mera crença, é como se a religião fosse herdada tanto quanto uma parte das características genéticas como a cor dos olhos.
Uma insiste em dizer que "ela é humana. Ela não pode ser uma deusa!". E seu pai o contradiz (aludindo à religião cristã de Uma). "Você está dizendo que não acredita na reencarnação?"
Responder a um opositor usando suas próprias crenças sobrenaturais constitui um argumento perturbador. Ponto, contra-ponto.
E, então, em um rebate convincente, Uma protesta: "Durante os últimos três anos, você conheceu Daya tão bem quanto eu". E, neste ponto, a implicação é óbvia: será que algum deles conhece esta moça? E como é que um marido e um sogro podem conhecê-la tão bem? "Como é que você pode afirmar que ela não é humana?" Uma responde. "Onde está a prova de que ela é uma Deusa?"
E, como se aproveitando a deixa, gritos de júbilo anunciam que o neto do mendigo voltou a si. "Ele pode ter recobrado a consciência por meios naturais", insiste Uma, que imediatamente decide retirar Daya da casa. Quando ele pede a ela para partir com ele, ela concorda com alegria.
Porém, o despertar do menino é aclamado como prova inequívoca da reencarnação de Kali. A notícia se espalha e as pessoas começam a chegar para prestar homenagem a Daya e fazer pedidos.
Quando Daya e Uma correm em direção ao rio para pegar um barco que está à espera, eles encontram a imagem de Kali que havia sido depositada na água e agora estava na margem, como se tentando impedi-los de prosseguir. Daya interpreta isso como um mau presságio de que ela não deveria fugir. O fervor dos fiéis fez surgir uma dúvida em sua mente. E se ela realmente fosse uma reencarnação de Kali? É certo que os deuses reencarnam... e quem é que poderia lhe dizer como é que se sente uma legítima encarnação? Ela não sabe. Ela só sabe que uma criança muito doente ressuscitou quando foi trazida a ela. E, supondo que ela seja uma encarnação de Kali, se ela permitir que seu marido a leve embora, será que isso não fará recair o mal sobre ele?
Receosa, ela pede para retornar à casa e seu marido, como um pai indulgente, a leva de volta. Ainda que reconheça a fragilidade de Daya e o poder das forças mobilizadas contra ela, ele retorna a Calcutá, deixando-a lá sozinha para enfrentar sua provação. Mas a situação agora é ainda pior para ela pois a notícia da cura milagrosa de Kali já se espalhou, atraindo milhares de peregrinos.
Encontramos a mesma resposta do público a uma imagem do Cristo em um sanduíche de queijo ou em uma exposição polêmica em uma museu de arte. É isso o que atrai peregrinos a Lourdes. As multidões se formam devido à curiosidade, à vaidade dos experts ou à esperança de muitos face ao desespero e à dor.
Uma discute o seu problema com um professor ocidentalizado que inadvertidamente relaciona a questão exclusivamente ao fato de Uma negar a Daya seus direitos conjugais. Ele conta que ele próprio, também convertido a outra religião (supostamente ao cristianismo), havia tido conflitos com seu pai "tradicionalista", mas manteve-se fiel a sua crença, e aconselha Uma a fazer o mesmo.
E também isso é parte da dinâmica do fanatismo - essa objeção baseada não em crenças religiosas mas em considerações de ordem pessoal, neste caso a negação dos direitos conjugais. Mais uma vez, com relação ao cristianismo, considerar os direitos conjugais de José seria algo impensável. Na religião existem dois pesos e duas medidas para todas as situações sobrenaturais. Uma ocorrência sobrenatural considerada normal em uma religião é vista como insanidade inaceitável em outra.
Em casa, Khoka fica doente e sua mãe chama um médico. Este reluta em tratar a criança por receio de comprometer a validade da visão do patriarca. Referindo-se aos poderes milagrosos de Kali, ele lembra à mãe que muitos foram curados por Kali. A mãe de Khoka, porém, insiste na consulta.
Ela quer que seu filho seja tratado pelo médico, porém cede quando Khoka grita chamando por sua tia Daya e o médico sugere que ela o leve para Kali e, se necessário, ele voltará no dia seguinte com o remédio.
Daya, entorpecida e exausta após passar semanas sentada imóvel diante de multidões em súplica, fica extasiada ao segurar Khoka em seus braços novamente. Ela não parece compreender que ele está doente e pede apenas que ele passe a noite ao seu lado. Os outros o deixam com ela, esperando um milagre, mas nenhum milagre acontece. Pela manhã, o menino está morto.
Daya é novamente uma simples mortal sem amigos num ambiente hostil. O altar próximo à escadaria em frente à casa no qual ela havia estado imóvel durante semanas é abandonado. As multidões de peregrinos desaparecem. Sua cunhada a acusa. Seu sogro se ajoelha diante de uma imagem de Kali e suplica que a deusa lhe diga o que ele fez para merecer tal castigo.
Uma volta para casa, esquecido de sua própria contribuição para o infortúnio. Ele culpa o pai por sua fé cega. "Você matou Khoka!", ele acusa, "e você quase matou a minha esposa quando pôs em seus ombros o peso da divindade!"
Tudo o que aconteceu foi mais do que Daya poderia suportar: a morte de Khoka, a ausência de Uma, sua própria apoteose equivocada e o desprezo de seus parentes. Quando ela finalmente vê Uma, ela lhe diz que eles precisam fugir dali. Em sua óbvia perturbação, ela sussurra: "Os demônios estão me perseguindo". Ele fica parado, chamando-a enquanto ela corre em direção ao rio e desaparece no nevoeiro.
É óbvio que para aprender a metodologia das religiões precisamos ser ensinados. A aplicação de tais métodos pode nos trazer poder. Modelos da psiquê, estórias de feitos heróicos, escrituras e comentários, explicações das regras que governam a conduta ética, técnicas de meditação - tudo isso é necessário - e tudo isso requer a boa vontade de um professor. Na base da montanha há espaço para muitas salas de aula.
Porém o caminho até o topo é estreito e íngreme. Quando alguém se dispõe a subir, deve fazê-lo sozinho. Pode haver milhares de outros à sua frente ou atrás, mas ele sobe em fila única.
Sozinho ele pode fixar sua atenção na Verdade Espiritual que está em seu interior. Se ele não puder reconhecer esta Verdade santificadora com um fé inabalável, sua caminhada para o topo será apenas uma alucinação. Ele ainda está preso na base da montanha e não sabe como se libertar de lá. Os títulos nada significam e os louvores das multidões significam ainda menos.
Se ele não tiver firmeza em seus primeiros passos no ponto de partida, ele receberá inúmeros conselhos de pessoas que nunca subiram a montanha. E é então que ele precisa aplicar os testes de "motivação e conseqüência" que Satyajit Ray propôs em seu genial filme.
Em Devi, a crença no sobrenatural não é questionada. O que Ray examina é a crença na crença daqueles que se dizem conhecedores. Uma crença que é verdadeira torna-se conhecimento e tal conhecimento torna-se sabedoria. Porém, a crença que é falsa leva ao conflito e à catástrofe.
A estória contada por Ray é atemporal. Já faz cinqüenta anos e nós ainda ouvimos falar em se substituir o tratamento médico pela cura pela fé (faith healing) e outros remédios milagrosos, do mesmo modo que ouvimos falar de cientistas que pensam que são iluminados porque sabem discutir sobre a Luz. Já faz cinqüenta anos e nós ainda ouvimos falar de patriarcas devotos que tentam transformar em leis suas próprias e duvidosas revelações.
A descrição da criação do homem dada pela religião de alguém parece perfeita quando é ensinada em um cenário religioso. Porém, não tem lugar no âmbito da escola pública americana.
No entanto, quando se trata do Juramento de Fidelidade (à bandeira americana) ou da inscrição em nossa moeda ou de entoar "Deus Abençoe a América" em praça pública .. será que não podemos ser razoáveis? Em que ponto e de que modo estas coisas violam os nossos direitos constitucionais?
E como devemos entender o ato de o Presidente do Supremo Tribunal John Roberts colocar sua mão sobre a Bíblia e jurar defender a Constituição, terminando por "que Deus me ajude"? Não se trata de uma crença danosa no sobrenatural que substitui a insulina ou a cirurgia por orações. Não se trata da freqüência obrigatória ao catecismo. É apenas parte da nossa tradição americana que não viola o direito de ninguém.
Uma nota pessoal quanto à questão do Juramento de Fidelidade: quando eu aprendi a recitá-lo na infância não havia nenhum "a serviço de Deus" ("under God") inserido nele. Hoje, quando fico de pé e recito o Juramento, vencida pela idade, e eu falo sem pensar: "uma nação, indivisível, com liberdade e justiça para todos". Honestamente, eu prefiro a cadência dos versos sem a inserção. Mas, eu me lembro do horror da Segunda Guerra Mundial que eu vi apenas por fotografia. Dwight Eisenhower viu a guerra de perto. Ele comandou as Forças Aliadas que derrotaram o furor nazista e sua gigantesca máquina de guerra. Ele viu com seus próprios olhos o que o ateísmo tinha feito à Europa - e ainda estava fazendo também por trás da Cortina de Ferro em cada estado comunista ateu - milhares de pessoas assassinadas, cidades bombardeadas, campos de concentração e o Gulag. Ele voltou para casa - a América que estava a salvo, conservando sua abençoada liberdade. Se ele viu essa diferença como ação da divina providência e por isso acrescentou "a serviço de Deus" ao Juramento de Fidelidade, é lá mesmo que esta inserção tem o direito de ficar.